A tecnologia e porque você gosta das coisas

Com a ideia de organizar da grande quantidade de dados gerados diariamente, surge a possibilidade de se mostrar os resultados de uma maneira que pode ser mais interessante para os usuários, gerando o que se chama de algoritmos sociais.

Com a ideia de organizar da grande quantidade de dados gerados diariamente, surge a possibilidade de se mostrar os resultados de uma maneira que pode ser mais interessante para os usuários, gerando o que se chama de algoritmos sociais. Porém quando os sistemas informatizados dos sites começam a entregar seleções de resultados baseados em algoritmos, que são desenvolvidos com a finalidade de apresentar o que, na teoria, seria o conteúdo com os quais os usuários teriam maior empatia ou achariam mais importante, os mesmos sites ou algoritmos podem estar pasteurizando as informações e escolhas, possivelmente evitando o acesso a uma diversidade maior. Como observado por Verdú (2016):

O algoritmo constrói assim um universo cultural adequado e complacente com o gosto do consumidor, que pode avançar até chegar sempre a lugares reconhecíveis. Mas o que aconteceria se a vida nos desse sempre o que gostamos e nos rodeasse apenas das pessoas que nos fazem sentir bem?. (VERDÚ, 2016)

Para o autor, os algoritmos, ao tentarem facilitar ou amenizar o conteúdo, acabam por nos tornar previsíveis e acabam empobrecendo nossa curiosidade cultural, o que pode ser considerado um fator preocupante, pois a curiosidade, a vontade de entender e aprender formas, métodos e causas entre outras partes, sempre foi um dos principais motores da evolução dos seres humanos e também é um dos fatores que diferencia os seres humanos dos animais irracionais. Curiosidade que também se apresenta atualmente como um dos diferenciais entre os homens e as chamadas máquina inteligentes e nos leva a questionar se algum dia as máquinas ou sistemas digitais inteligentes podem aprender através deste sentimento. Pode-se definir ou programar uma máquina para absorver constantemente o maior número de informações possíveis de diversos assuntos, mas ela vai estar aprendendo, pois foi programada para isso e não porque teve a curiosidade ou a intenção de aprender algo a partir de determinada situação. Provavelmente, esse seja um sentimento impossível de se reproduzir na sua essência em sistemas digitais.

A priori, os sentimentos ainda continuam como uma forma de diferenciação entre humanos e máquinas, pois são elementos de difícil definição e acabam mudando de intensidade entre as pessoas, lugares e épocas e, apesar de alguns teóricos afirmarem ser possível programar máquinas para reagirem de determinadas maneiras em situações que são apresentadas a elas, simulando reações possivelmente humanas, como a reação de recuar diante de um problema que possa colocar em risco a continuidade ou a existência da máquina, o que poderia ser comparado com o medo que um humano ou animal sente em determinado momento de sua vida.

Com esses algoritmos sociais, grande parte de informações que consumimos e que acabam influenciando no nosso dia a dia, já são pré-selecionados dentro das redes sociais ou buscadores. O problema é a relação e a variação deles com o nosso gosto e possivelmente com a nossa ética. Muitos sistemas se baseiam em uma busca contextual, e estas buscas normalmente não seguem um padrão e fazer a relação do que realmente interessa ao usuário com entradas tão dispares pode ser uma tarefa extremamente complexa.

Atualmente, como já analisado por Verdú (2016), a maioria dos sistemas omite os elementos que não estão em consonância e busca coisas mais óbvias, como se a pessoa gostou de determinado conteúdo provavelmente vai gostar deste da mesma forma, e também faz o uso de um relacionamento de buscas de usuários com perfis parecidos, traçando linhas entre eles e gerando o que ele chama de taste profile. São os algoritmos tentando entender o nosso gosto e definir o que queremos ou não ver, mas essa definição ou encontrar um ponto comum entre diversos usuários pode ser complicado de se obter com maestria, uma vez que um usuário pode gostar de elementos totalmente diferentes dentro de uma área como a música ou artes por exemplo. É possível alguém gostar de um estilo de pintura e outro que não traz nenhuma semelhança com o primeiro ou ter apreciação por estilos de músicas totalmente opostos e não ter interesse em nenhum estilo que poderia ser considerado intermediário ou com o gosto de sua rede de amigos. A própria definição de gosto é variada e ampla, podendo ser apresentada como:

  • opinião subjetiva ou apreciação crítica sobre algo; critério, preferência;
  • qualidade estética indicativa de tal apreciação ou julgamento;
  • maneira, estilo, moda;
  • disposição natural; pendor, inclinação;
  • sensação gustativa característica de determinadas substâncias; sabor;
  • sentido pelo qual se distinguem sabores; paladar.

Formado e influenciado por vários elementos, o gosto vai tomando forma ao longo da vida e pode se modificar conforme o tempo passa. É possível gostar de um determinado tipo de comida quando criança e mudar totalmente a sua aceitação quando adulto, o que é uma coisa também influenciada pelos tipos de paladares que temos ao longo da vida. Musicalmente pode existir uma mudança significativa e nossa percepção quanto a arte, moda entre outros também se altera devido a vários fatores como idade, a evolução dentro da pirâmide socioeconômica, localização, grupo de amigos, estudos entre outros fatores. Fora o caráter social do que é considerado gosto ou ainda o chamado bom gosto, geralmente ditado por pessoas influentes dentro de uma sociedade que tiverem acesso a uma cultura mais diversificada. É bom lembrar que o fator econômico tem o seu peso, mas não é a única maneira para uma pessoa ser considerada como a possuidora de bom gosto, mesmo porque, como citado anteriormente, o gosto muda em função de muitas variáveis como classes sociais, estudo, localização entre outras coisas. Para Bourdieu (1979), a diferenciação social sempre foi um fator fundamental do gosto, servindo para julgar e sermos julgados através dele. É também um rótulo que as pessoas acabam recebendo.

Esses sistemas baseados em algoritmos acabam usando os seus dados já capturados através de várias fontes como Internet das Coisas, geolocalização, círculos de amigos, buscas ou redes sociais para tentar apresentar ao usuário o que ele teria a tendência de gostar mais. É o futuro refletindo o passado, citando a música “O tempo não para”, escrita por Cazuza. O grande problema dessa aproximação é que somente recebemos coisas que teoricamente nos fazem bem ou a que já estamos acostumados. É a amplificação da previsibilidade e a diminuição do espírito curioso que permite a ampliação dos conhecimentos e da cultura. Isto pode ser exemplificado através dos feeds de notícias apresentados no Facebook ou Instagram, que são baseados nos tipos de conteúdo que o usuário mais posta ou interage. Esta nem sempre foi a maneira que o conteúdo se apresentava nas redes sociais acima citadas. Em suas primeiras versões elas mostravam os posts em uma ordem cronológica. Conforme a sua lista de contatos ou amigos produziam posts, eles iam aparecendo para você cronologicamente. Essa mudança ocorreu primeiro no Facebook em 2012 e posteriormente no Instagram no mês de junho de 2016, e hoje são chamados de feeds algorítmicos, que faz estas redes sociais parecerem operar em um gerúndio, com as coisas se mostrando ao longo de um período de tempo e não mais de maneira instantânea como era antes.

Os responsáveis pelas redes argumentam que, como elas cresceram demais, houve a necessidade de uma seleção para entregar conteúdo mais relevante aos usuários, mas essa seleção é questionável em vários sentidos, pois passa desde o estabelecimento do que um usuário gosta ou não até a omissão ou apresentação de notícias que sejam de interesse da empresa.

Segundo pesquisa realizada em 2016, pelo Instituto Reuters, 91% dos brasileiros têm acesso ao conteúdo jornalístico através das redes sociais, e o Facebook é a rede mais utilizada. A média mundial é de 70% segundo a mesma pesquisa. Dessa maneira, pode-se imaginar que, com uma força de penetração dessa magnitude, seria possível direcionar, em casos hipotéticos, quais os conteúdos deveriam ser vistos ou não. A questão novamente se dirige à maneira como recebemos conteúdo, já que as redes sociais usam um algoritmo seletivo e este cria uma espécie de bolha intelectual; dentro desta bolha temos as pessoas que são escolhidas por diversos motivos, mas principalmente por afinidades de gostos e tipos de posts, criando assim uma sensação irreal de controle.

Ao sermos apresentados a conteúdos escolhidos por algoritmos, podemos questionar sua pasteurização, e isso ter como resultado a criação de uma massa de seguidores que se fazem apenas contentes com o que recebem, sem formular questionamentos, pois a base comparativa fica afunilada. Este é um grande paradoxo da rede. Temos o acesso a uma vasta quantidade de conteúdo nos dias atuais e, ao mesmo tempo, as pessoas acabam seguindo padrões determinados por ela ou outros influenciadores e não se aprofundam muito nestes conteúdos.

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Referências

BOURDIEU, Pierre. A distinção: crítica social do julgamento. 1 ed. Porto Alegre, RS: Editora Zouk, 2011.

REUTERS INSTITUTE FOR THE STUDY OF JOURNALISM. Digital news report 2016. Disponível em: <http://www.digitalnewsreport.org/>. Acesso em: 05 dez. 2016.

VERDÚ, Daniel. O gosto na era do algoritmo. El País, [S.L], jul. 2016. Disponível em: <http://brasil.elpais.com/brasil/2016/07/07/cultura/1467898058_835206.html>. Acesso em: 11 jul. 2016.

 

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