Mídia e a forma que pensamos

A mídia fornece conteúdo para o pensar, mas também molda o processo de pensamento.

A mídia fornece conteúdo para o pensar, mas também molda o processo de pensamento (CARR, 2008). De acordo com pesquisa feita por professores da University College London (2008), os usuários não estão lendo on-line da mesma maneira que nos meios tradicionais. De fato, há sinais de que novas formas de “leitura” estão emergindo à medida que os usuários “navegam vigorosamente” na horizontal através de títulos, páginas de conteúdo e resumos para um contato rápido com o conteúdo. Parece quase que eles estão on-line para evitar ler no sentido tradicional.

Graças a ubiquidade do texto na internet, além de outros aplicativos de texto, redes sociais e e-mails que podem ser acessados de qualquer lugar em telefones celulares, as pessoas leem mais hoje do que nos anos 70 ou 80, quando a televisão era a principal mídia de acesso ao conteúdo. Mas é um tipo diferente de leitura, e por trás disso está um pensamento diferente – talvez até um novo senso do eu. “Nós não somos apenas o que lemos”, diz Wolf (2007), conforme citado por Carr (2008), “Nós somos como lemos”, complementa. Wolf ainda se preocupa com o estilo de leitura promovido pela internet, um estilo que coloca “eficiência” e “imediatismo” acima de tudo e que pode estar enfraquecendo nossa capacidade para o tipo de leitura profunda, que surgiu quando uma tecnologia anterior, a mídia impressa, fez longas e complexas obras.

Quando lemos on-line, tendemos a se tornar “meros descodificadores de informações”.

Nossa capacidade de interpretar o texto, para fazer conexões mentais, que se formam quando lemos profundamente e sem distração, permanece em grande parte desativada. As mudanças comportamentais e no modo como navegamos e consumimos informações influenciam e alteram a plasticidade de nosso cérebro. Segundo artigo de Champeau (2008), uma pesquisa realizada por Gary Small (2008), professor e pesquisador no Semel Institute for Neuroscience and Human Behavior da Universidade UCLA nos Estados Unidos, com usuários experientes no buscador Google e usuários que não o usavam com tanta frequência apresentou resultados surpreendentes: após cinco horas de uso, os usuários novatos demonstraram a mesma atividade cerebral no córtex pré-frontal que os usuários experientes. Uma demonstração clara dessa plasticidade e de como a tecnologia pode alterar nossas sinapses. O processo da adaptação junto às novas tecnologias é refletido até mesmo na maneira como nos referimos ao pensar.

Antigamente a mente funcionava como um relógio e hoje ela deve funcionar como um computador. Porém computadores são excelentes em processar tarefas paralelamente, e o cérebro humano não. Para Keegan (2011), alternar entre apenas duas tarefas pode adicionar substancialmente informações a nossa carga cognitiva e nossa performance sofre. Existe uma forte correlação entre o número de hiperlinks em um site e a experiência de desorientação ou sobrecarga cognitiva. Ao contrário das previsões, a desorientação não diminui com o uso ou o costume. Os leitores de hipertexto muitas vezes clicam ao acaso em páginas, em vez de lerem o conteúdo completamente, e sua retenção é baixa. Este novo perfil que desenvolvemos para o consumo das camadas mídias digitais é chamado por Santaella (2004, p.33-36) de leitor imersivo, leitor esse cujas principais características são a prontidão sensorial, a não-linearidade e a interatividade e ele navega por várias camadas de conteúdos através dos links que as une, que pode ter uma leitura sem um fim específico, que cruza as informações com outros textos, os compara e gera um terceiro ou um quarto conteúdo. Este é um leitor que cresce inserido nos grandes centros urbanos, habituado à linguagem efêmera e provido de uma sensibilidade perceptiva quase instantânea, surge da multiplicidade de signos e ambientes virtuais de comunicação imediata. É o leitor da hipermídia que coloca em ação habilidades de leitura muito diferentes das empregadas por um leitor de livros impressos (PINHEIRO, 2013) e esta é a forma como os estudantes universitários encontraram artigos acadêmicos esparsos, lendo apenas uma ou duas páginas.

 A internet é uma máquina projetada para a coleta, transmissão e manipulação de informações eficientes e automatizadas, e suas legiões de programadores têm a intenção de encontrar o ‘melhor método’ – o algoritmo perfeito – para realizar todos os movimentos mentais do que nós ” Venho descrever como ‘trabalho de conhecimento’. Na visão do Google, a informação é um tipo de mercadoria, um recurso utilitário que pode ser minado e processado com eficiência industrial. Quanto mais informações pudermos ‘acessar’ e quanto mais rápido possamos extrair sua essência, mais produtivos nos tornamos como pensadores e não sei se essa é a visão correta (CARR, 2008).

Keegan (2011) cita estudo de Greenfield (2011), que acredita que passar tanto tempo no ciberespaço inevitavelmente levará a mentes muito diferentes de outras na história humana. No futuro, a “navegação horizontal” pode se tornar um pensamento “normal”. Podemos aperfeiçoar a rápida coleta de dados ao custo do pensamento profundo e reflexivo. Atualmente os usuários digitais já se encontram submersos em um oceano de informações com muitos dados e pouco tempo para pensar e refletir sobre eles e criar uma visão maior.

Esse é um grande paradoxo dos tempos atuais: uma quantidade de informações gigantesca e horas limitadas do dia. As informações aumentam diariamente, mas o dia continua a ter 24 horas, o que claramente torna impossível a absorção. Desta forma, talvez a habilidade mais importante de um pesquisador seja ser contrário, retroceder, pensar profundamente, reflexivamente, analiticamente, fazer conexões, visualizar problemas através de diferentes perspectivas, contextualizar, para sintetizar e formular o nosso pensamento de forma relevante.

Bibliografia

CARR, Nicholas. Is Google Making Us Stupid?. The Atlantic, New Hampshire, jul./ago. 2008. Disponível em <https://www.theatlantic.com/magazine/archive/2008/07/is-googlemaking-us-stupid/306868/>. Acesso em: 31 mai. 2017.

CHAMPEAU, Rachel. UCLA study finds that searching the Internet increases brain function. UCLA Newsroom, Los Angeles, out. 2008. Disponível em <http://newsroom.ucla.edu/releases/ucla-study-finds-that-searching-64348>. Acesso em: 25 dez. 2016.

KEEGAN, Sheila. Are we Losing our Minds?. RESEARCH LIVE, Londres, jun. 2011. Disponível em: <https://www.research-live.com/article/opinion/are-we-losing-ourminds/id/4005414>. Acesso em: 01 dez. 2016.

PINHEIRO, Naná. Três tipos de leitor, um breve resumo. Charadas no Escuro, nov. 2013. Disponível em: <https://charadasnoescuro.wordpress.com/2013/11/17/tres-tipos-de-leitor-um-breve-resumo/>. Acesso em: 21 dez. 2016.

SANTAELLA, Lúcia. Navegar no ciberespaço: o perfil cognitivo do leitor imersivo. 1 ed. São Paulo: Paulus, 2004. 33-38 p.

WOLF, Maryanne. Proust and the squid: The Story and Science of the Reading Brain. 1 ed. New York: Harper, 2007.

Mídia

Related Posts

Leave a comment