O efeito Google e a transferência do conhecimento da mente para o digital

Com a internet, a mente humana foi reduzida de uma potência para um membro que entende que a informação existe em algum lugar, o chamado efeito Google.

Com o desenvolvimento da internet, a mente humana foi reduzida de uma potência para um membro que entende que a informação existe em algum lugar, o chamado efeito Google. A internet, em outro sentido, também é diferente de um parceiro de memória transacional humana. Ela sabe mais e pode produzir esta informação mais rapidamente. Quase toda a informação hoje está prontamente disponível através de uma rápida pesquisa na internet. Pode ser que a internet esteja tomando o lugar não apenas de outras pessoas como fontes externas de memória, mas também de nossas próprias faculdades cognitivas. A internet pode não só eliminar a necessidade de um parceiro com quem compartilhar informações, mas também prejudicar o impulso de garantir que alguns fatos importantes, apenas conhecidos, sejam inscritos em nossos bancos de memória biológica.

Chamamos isso de efeito Google (WEGNER e WARD, 2013). E esse efeito, de acordo com Roberts (2015), traz consequências em nossa memória, pois cerca de 90% das pessoas do espaço amostral pesquisado sofrem de um tipo de amnésia, a chamada amnésia digital. Mais de 70% não lembram do número de telefone dos seus filhos e 49% de seus companheiros.

Outro fator de impacto em nossa memória é a captura de imagens através de fotos. Roberts (2015) cita estudo de Wimber (2003) para a Universidade de Fairfield, no qual participantes tinham que andar por um museu divididos em dois grupos. Um tinha que tirar fotos pelo trajeto e outro somente observava. No final foi constatado que o grupo que apenas observava conseguia se lembrar de uma quantidade de informação muito maior do que aquele que tirava fotos, comprovando que, com a tecnologia, temos a tendência de nos preocupar menos em armazenar as informações, pois sabemos que elas estão armazenadas e podem ser acessadas a qualquer momento.

Para uma geração ávida por informações de uma maneira rápida e variada, o modus operandi eficiente da rede contrasta com métodos de pesquisa mais tradicionais, e a pesquisa em livros ou artigos acadêmicos dentro de bibliotecas físicas parece uma eternidade para um jovem. Ainda segundo Wegner e Ward (2013), o ecossistema do Google – e em parte a Wikipedia – mudou a relação. A distinção entre o interno e o externo – o que reside em nossas mentes em oposição ao que um amigo conhece – muda radicalmente quando o confidente é a internet. A informação obtida da internet agora chega às vezes mais rapidamente do que o que podemos tirar de nossas próprias memórias. O imediatismo com o qual um resultado de pesquisa aparece na tela de um smartphone pode começar a desfocar os limites entre nossas memórias pessoais.

A organização e indexação de praticamente todo o conteúdo da internet aberta, além da maneira instantânea com que o Google apresenta as informações faz dele um dos principais sites para a grande maioria dos usuários. Em uma pesquisa realizada pelo próprio Google (2017), foi constatado que a empresa também tem uma imagem positiva perante esses jovens por outros motivos. Entre eles, poder ter acesso a todas as informações que eles necessitam em qualquer lugar é a principal, seguida pela inovação trazida pela empresa e a criatividade, como pode ser visto na resposta de uma participante:

O Google é muito legal porque é um inovador. Um definidor de tendências. O Google não é apenas um motor de busca poderoso, mas ótimo em tudo o que faz, de e-mail para documentos. Os produtos são fáceis de usar e funcionam bem. Como empresa, também representa educação e criatividade, mostradas pelas feiras científicas e concursos de doodles que hospedam. (GOOGLE, 2016)

Com a onipresença dos celulares e por consequência da internet na vida dos membros da Geração Z, pode-se supor que os membros desta geração já tenham nascido com um conceito diferente de armazenamento e compartilhamento das informações. Sua memória transativa é impulsionada pelos meios digitais e hoje – mais do que nunca – o que importa não é saber as respostas corretas, mas sim as perguntas corretas. É um período de transição que permite a perpetuação de informações e conteúdos de uma maneira impossível de acontecer tempos atrás.

Antes, se uma pessoa tivesse o conhecimento só para si e ela morresse, o conhecimento se perdia, hoje ele é perpetuado e compartilhado em segundos. A mudança no local onde se encontram as informações e a subsequente desconexão entre o conhecimento atual e o percebido traz aspectos positivos e negativos na maneira como processamos a informação (WARD, 2015, p. 341). Da mesma maneira que previne distorções na memória, ele pode impedir sua formação. Essa mudança liberta nossa mente para processos novos, mas, ao mesmo tempo, pode inibir a nossa vontade de buscar novas informações. A tecnologia e a internet mudaram a forma de pensar, mas essa mudança não ocorreu através de uma alteração do fluxo cognitivo, e sim ao introduzir novos componentes dentro do processo.

Bibliografia

GOOGLE. It’s lit – a guide to what teens think is cool. Disponível em: <https://storage.googleapis.com/think/docs/its-lit.pdf>. Acesso em: 15 jul. 2017.

ROBERTS, Genevieve. Google Effect: Is technology making us stupid?. Independent, [S.L],jul. 2015. Disponível em: < http://www.independent.co.uk/life-style/gadgets-andtech/features/google-effect-is-technology-making-us-stupid-10391564.html>. Acesso em: 11 jul. 2017.

WARD, Adrian F.. Supernormal: How the Internet Is Changing Our Memories and Our Minds. Psychological Inquiry: An International Journal for the Advancement of Psychological Theory, Colorado, v. 24, n. 4, p. 341-348, dez. 2013.

WEGNER, Daniel M.; WARD, Adrian F.. The Internet Has Become the External Hard Drive for Our Memories. Scientific American, Nova Iorque, dez. 2013. Disponível em: <https://www.scientificamerican.com/article/the-internet-has-become-the-external-hard-drivefor-our-memories/>. Acesso em: 28 mai. 2017.

 

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