O mundo em seu bolso

Os celulares podem ser encarados como uma verdadeira extensão do corpo humano e talvez possamos considerar as gerações atuais de pessoas como os precursores ou até mesmo espécies de primeiros ciborgues.

Cada vez mais importantes nas vidas das pessoas, os celulares podem ser encarados como uma verdadeira extensão do corpo humano e talvez possamos considerar as gerações atuais de pessoas como os precursores ou até mesmo espécies de primeiros ciborgues, que tem em seus dispositivos móveis uma verdadeira extensão e continuidade de sua vida, com agendas, calculadoras, aplicativos de diversas naturezas, números de telefones e anotações, todas guardadas em um dispositivo eletrônico, de fácil acesso e presente por praticamente 24 horas ao lado das pessoas. Quando é citado 24 horas não se pode tomar como um exagero, pois segundo pesquisa de 2012 da empresa Intel, cerca de 80% das pessoas dormem com o celular ao seu lado e 40% chegam a atender o celular quando estão no banheiro. Para muitas delas, a última atividade do dia é verificar o que está acontecendo nas redes sociais que faz parte, verificar se algum post ou foto sua recebeu algum Like ou algum comentário. A necessidade dessa conexão constante, volta a se fazer presente logo no primeiro momento do dia, onde muitos logo após o despertar já acessam novamente as redes sociais, na contínua necessidade de estar sempre online. Inclusive esse sentimento do primeiro acesso ao Facebook, Twitter ou qualquer outra rede social que o usuário tenha mais afinidade tem um impacto neurológico semelhante ao de um cigarro do dia para um fumante compulsivo como pesquisado por Torsheim, Brunborg e Pallesen em 2012, revelando o quão necessário ou viciante se tornou o acesso as redes. Acesso esse que alguns anos atrás se dava em determinados períodos, como nas horas em que as pessoas estavam em momentos de relaxamento em casa ou mesmo sem outras ocupações no trabalho. Esse era basicamente o tipo de acesso nas redes sociais, usando o Orkut como exemplo aqui no Brasil e depois em uma passagem para o Facebook nos últimos anos.

Porém esse acesso e os períodos nos quais as pessoas ficam conectadas foi amplamente expandido com a modernização dos smartphones e a facilidade do acesso à internet através dos dispositivos móveis, principalmente com as redes 3G e mais recentemente as redes 4G, e a popularização de dispositivos WiFi e pontos de acesso espalhados por diversos lugares do ambiente urbano e também em alguns lugares mais inóspitos.

Graças a conexão constante das pessoas, o comportamento social já inerente dos seres humanos, acaba sendo potencializado de maneira exponencial, com consequências positivas e negativas para o comportamento das pessoas, como cita Carr em suas duas principais publicações: The Shallows e The Big Switch. No livro The Shallows (2011), o autor faz uma interessante análise sobre a atual geração e a fase de transição em que nos encontramos. Os constantes conflitos causados por grandes mudanças de tecnologias, novos meios de trabalhos e estudos, causam uma falta de entendimento de como usar a utilizar melhor os avanços trazidos por essas mudanças. Talvez por comodidade ou até mesmo facilidade, as pessoas acabam usando as redes para suprir desejos não tão nobres como a busca de status nas redes sociais ou desejam possuir um número de amigos que muitas vezes se aproxima da faixa dos milhares – mesmo sabendo que é praticamente impossível uma pessoa conhecer e se relacionar efetivamente com uma quantidade tão grande de pessoas. Em seu outro livro, The Big Switch, Carr (2013) cita as grandes vantagens e transformações trazidas pelas tecnologias. Inovações essas que permitem o aumento crescente da publicação de livros, músicas, soluções de problemas através da sabedoria das multidões, conceito já estudado com maestria
por Jenkins em seu seminal livro “A cultura da convergência” (2009). Normalmente a transição de uma época para outra é sempre marcada por um uso não tão efetivo das tecnologias responsáveis pela transformação mas como toda a evolução, esse rito de passagem da sociedade está cada vez mais curto.

De acordo com pesquisa das Nações Unidas publicada em 2000, o número de anos que os veículos de mídia levaram para atingir o número de 50 milhões de usuários foi de:
• Radio: 38 anos
• Tv: 13 anos
• Internet: 4 anos
• iPod: 3 anos
• Facebook: 2 anos

Dentre os principais pontos negativos dessa vida plugada 24 horas através dos smartphones, vale a pena citar o Phubbing, que é uma palavra cunhada pela união das palavras inglesas phone (telefone) e snubbing (esnobar). A palavra foi criada por Alex Haigh em 2012 e se refere a aquele momento em que as pessoas se reúnem para conversar, os namorados encontram-se para jantar ou uma família senta a mesa para tomar o seu café mas em poucos momentos um ou até mesmo todos os envolvidos estão teclando, acessando e-mails ou redes sociais nos celulares. É o limite máximo da separação das famílias que teve início quando as casas passaram no meio do século passado a ter mais de um banheiro, depois as televisões saíram das salas e todos passaram a ter aparelhos nos quartos, posteriormente foi a chegada dos chats nos computadores e agora os smartphones contribuem para unir e separar ao mesmo tempo. Criou-se até um site para acabar, ou mais provavelmente, tentar diminuir o Phubbing, que é o www.stopphubbing acompanhado de uma série de campanhas criativas para tratar do assunto.

Conexão e dependência constante

Seguindo ainda na linha de novos problemas trazidos pela tecnologia, o Blackberry Neck, que em um primeiro momento parecia um problema mais estético por enrugar o pescoço prematuramente, se mostra agora mais complicado com dores de ordem muscular mais agudas e permanentes. O nome da enfermidade vem porque as pessoas passam muito tempo com a cabeça abaixada digitando textos em seus celulares e isso acaba forçando a área do pescoço de sobremaneira.

A dependência causada pelo conceito homem X máquina, causa nas pessoas quando perdem o celular uma sensação parecida com sensação da perda de um membro do seu próprio corpo e quando o mesmo foi achado foi como o encontro com alguém querido que não era visto há tempos.

Para não falar somente dos malefícios que os dispositivos móveis e a tecnologia podem trazer no campo da saúde, faz-se necessário citar outras mudanças de ordem comportamental que parecem prosaicas mas são extremamente importantes pois tem um paralelo com a escala evolutiva da própria humanidade. Com o uso diário dos dispositivos móveis e as limitações que os teclados dos mesmos oferecem, toda a interação de uma nova geração de pessoas é feita através do polegar e isso leva a uma mudança do dedo mais utilizado pelas pessoas. Nas gerações anteriores, o indicador é o dedo dominante e responde por situações do cotidiano como tocar uma campainha ou chamar um elevador. Hoje, as gerações mais novas, graças ao constante uso do polegar, passaram a ter esse dedo como um dos mais usados. Através de uma pesquisa realizada por mim com 30 jovens de faixa etária entre 5 e 15 anos, obtive a constatação de que no espaço amostral, 75% dos pesquisados realmente preferem usar o polegar para tarefas que antes eram
feitas pelo indicador. Interessante notar que o polegar nos seres humanos é um dos pontos marcantes na cadeia evolutiva.
Outros pontos que merecem destaque positivamente são a facilidade de acesso as informações, o acesso as ferramentas de criatividade, pesquisas, barateamento das
telecomunicações e a diminuição das barreiras culturais, como já constatado por Friedman (2007).

Referências

CARR, Nichoas. Play: The Big Switch: Rewiring the World, from Edison to Google. W. W. Norton & Company, New York, NY, 2009.

CARR, Nichoas. The Shallows: How the internet is changing the way we think, read and remember. Atlantic Books, New York, NY, 2010.

FRIEDMAN, Jhomas. O mundo é plano. São Paulo: Objetiva, 2007. 10 p.

INTEL. Pesquisa divulgada pela Intel revela que 80% das pessoas dormem com o celular na cama e 40% atendem às ligações enquanto estão no banheiro.
Disponível e m : <http://newsroom.intel.com/community/pt_br/blog/2012/04/10/pesquisa-divulgadapela-intel-revela-que-80-das-pessoas-dormem-com-o-celular-na-cama-e-40-
atendem-%C3%A0s-liga%C3%A7%C3%B5es-enquanto-est%C3%A3o-nobanheiro>.

JENKINS, Henry. Cultura da convergência. 2. ed. São Paulo: Aleph, 2009. 2-3 e 428 p.

TORSHEIM, Torbjorn; BRUNBORG, Geir; PALLESEN, Stale. Development of a Facebook Addiction Scale . Disponível em : <http://www.amsciepub.com/doi/pdf/10.2466/02.09.18.PR0.110.2.501-517>.

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